Twitter: o elefante no laboratório das redes sociais | renata lemos

Faz tempo que quero escrever sobre a pluralidade das ecologias cognitivas no Twitter. A idéia desse post nasceu como reação a outro post, da pesquisadora Adriana Amaral, que com o título Talking Shit fala do problema da “irrelevância informativa” no Twitter:

“Qual a principal “acusação” contra as atualizações de status no Facebook ou tweets e outras atualizações personalizadas nos sites de redes sociais? A irrelevância informativa. Um debate interminável que constititui uma conversação (ou muitas vezes um mero monólogo observado e respondido por replys e comentários?) vai-e-vem sobre bobagens, trivialidades e irrelevâncias do cotidiano. É fato e, talvez seja essa a principal dificuldade dos usuários que entram inicialmente em uma rede como o Twitter ou o FB sintam, o que pode marcar o seu engajamento ou não no uso de tais ferramentas”

(íntegra disponível aqui: http://ow.ly/1bUyv)

Este artigo de Adriana Amaral, com certeza bastante inteligente e bem articulado, comete, porém, um pequeno erro que tem sido bastante comum nas análises de redes sociais: confundir uma determinada parcela da população de uma plataforma como representativa da totalidade da população em si. Várias outras análises existem que, a partir da observação de uma parcela específica da ecologia cognitiva das redes sociais, elaboram avaliações que pretendem ser aplicáveis às redes em toda a sua extensão.

É a célebre metáfora do elefante e os cientistas: quem pega na cauda, descreve o elefante como sendo a cauda; quem pega na orelha descreve o elefante como sendo a orelha, e assim por diante. O elefante inteiro é muito complexo e multifacetado, mas ainda assim, como pesquisadores das mídias sociais, é crucial tentarmos fazer o esforço de sair um pouco das nossas posições usuais, darmos alguns passos para trás para que possamos alargar um pouco mais nossos horizontes antes de elaborar avaliações que se referem a uma parte do elefante apenas, mas não ao elefante inteiro. É imprescindível mapear com clareza nosso próprio posicionamento dentro das redes, pois este posicionamento é que irá determinar nosso campo de acesso a estas redes.

Outro erro bastante comum é analisar os fluxos informacionais no Twitter como sendo análogos aos fluxos informacionais no Facebook, sendo que estas plataformas apresentam arquiteturas informacionais e dinâmicas conversacionais completamente diversas. No nosso livro Redes Sociais Digitais: Cognição Conectiva no Twitter (no prelo), eu e Lucia Santaella analisamos as diferenças fundamentais, que não podem ser negligenciadas, entre as dinâmicas comunicacionais de netweaving do Twitter versus os streams rígidos do Facebook, et al.

O fato é que, ao mesmo tempo em que existe sim, muita redundância e irrelevância informativa nas redes sociais, também existe um enorme, rico e abundante manancial de conhecimento, inteligência, inovação e interação criativa e artística fluindo abundantemente nos streams conectados a estes tipos de ecologia cognitiva produtiva, e não meramente sedentária (passivamente ruminando conteúdos relativos às mídias massivas, como tweets falando sobre BBB). É nestes fluxos e nestas ecologias cognitivas independentes ou quase independentes das mídias massivas, embora pequenos e ainda minoritários, que iremos encontrar a verdadeira beleza e o verdadeiro potencial transformador das redes sociais. A irrelevância informativa é algo que deve ser considerado simplesmente como aquilo que é: irrelevante. Para isto é que serve o botão do unfollow.

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