Acordem: Alô, os bandidos estão lá fora.

 

Nos últimos dias falamos muito sobre o maoísmo digital de Jaron Lanier, e sobre um conceito que Matteo Pasquinelli tem chamado de “ideologia da cultura livre”. Nesse contexto, tenho algumas coisas a dizer. É muito importante não deixar que a idéia geral de um futuro digital utópico nos deixe cegos aos fatos da economia e da dura realidade material (que nem sempre caminham juntas, como vimos com o macrocalipse de 2008).

Há essa idéia geral de que se todos nós apenas pularmos juntos no trem digital criativo, todos os nossos problemas sociais e econômicos magicamente irão se resolver. Agora a moda é “fluir”, enquanto experimentamos a “emergência”, e se você apenas “sintonizar” a onda “certa”, ela o levará a uma realidade global justa, a um futuro limpo, onde uma jovem e brilhante geração de nativos digitais vivem felizes para sempre em suas múltiplas plataformas de mídia social alimentadas por energia limpa.

Corte para o mundo real: desemprego em massa, um sistema político totalmente completamente disfuncional financiado por esquemas corporativos, um fracasso total e completo em Copenhague, onde nada é feito sobre o aquecimento global, um sistema financeiro mundial que é surreal para dizer o mínimo… (respira).

Enquanto isso, a idéia que os ativistas digitais fazem de “mudar o nosso futuro” é assinar petições online que não vão a lugar nenhum, colocar um twibbon nos seus avatares em redes sociais e pressionar o botão de RT nos tweets pedindo ajuda ao Haiti. E enquanto milhões fazem isso, na ilusão de estarem cumprindo seus deveres cívicos em relação à Terra através desse tipo de “ação” digital, a Terra está ficando mais quente todos os dias, o sistema político está ficando mais e mais corrupto, e os nossos filhos perdem um pedaço do seu futuro a cada dia. A cada minuto. Agora.

Então, seria maravilhoso se a gente pudesse despertar desse delírio e seguir em frente. Move on, baby. Para onde? Ah, bom. Pergunta certa. O que me leva a um ponto muito importante: um dos componentes principais da onda digital free culture é também a crença generalizada de que não existe essa coisa de “bem” versus “mal”, sabe? (afinal, todos nós somos parte da mesma rede, certo? Somos todos brothers e sisters digitais) Se nós simplesmente ignorarmos os maus (lembre-se: esse negócio de mal não existe), e ao invés nos concentrarmos em “sintonizar” nossa antena com a onda “emergente” de “evolução” em direção ao futuro, todos iremos encontrar o nosso caminho para o céu. Certo?

Desculpe, mas errado.

Acordem: Alô, os bandidos estão lá fora. Intoxicando nossos alimentos. Destruindo nosso planeta. Espalhando a desinformação digital em nossas redes. Esta é a primeira coisa a se lembrar. Quanto mais você ignora o fato de que há nomes por trás dos tratores destruindo nossas florestas, nossos rios, menos florestas vão sobreviver. Mas se você acordar para o fato de que você precisa lutar para conseguir acesso a esses nomes e fazer com que as informações a respeito deles estejam disponíveis digitalmente, então talvez a Terra possa ter alguma chance. Talvez. Neste momento, a primeira coisa que precisamos fazer é utilizar as redes sociais para obter os nomes dos bandidos (quer dizer, se pudermos acordar para o fato de que os bandidos existem).

Ao mesmo tempo, seria bom se pudéssemos descobrir e dar nomes também para os mocinhos. Mais uma vez, se pudermos concordar que há pessoas boas, e não apenas algumas boas idéias flutuando em algum lugar em uma mente coletiva gigantesca. O que me traz à questão existencial relativa aos gurus “ou não” gurus.

Se você achar que você não pode confiar em ninguém além de si mesmo e na inteligência coletiva, tudo bem. Mas tenho alguns gurus que eu gostaria de compartilhar com vocês aqui porque talvez vocês irão gostar deles também. O primeiro se chama Umair Haque e em Umair Haque eu confio. Quando ele fala, eu abaixo a cabeça e ouço, muito respeitosamente. A missão dele é colocar nomes em todos os bandidos que querem te vender lixo. Ele já colocou nomes em muitos bandidos, e sou grata por isso. Além disso, a missão dele também é converter tipos neutros em mocinhos, usando o poder surpreendente da AWESOMENESS (sorry, impossível de traduzir).

Se você quiser saber mais sobre awesomeness e como se tornar awesome também, visite http://blogs.hbr.org/haque/

Outra dica, embora talvez um pouco radical demais, é meu guru Derrick Jensen. O único ponto em relação ao qual eu e ele discordamos é sobre a perspectiva de usar a violência para parar os bandidos. No entanto, perdoe o fato de que ele é radical, porque ele faz um trabalho maravilhoso lhe dizendo como você deve também despertar da ilusão de pensar que a reciclagem dos seus sacos plásticos + economizar água = você está fazendo o melhor que pode então você dorme tranqüilo e tem sonhos felizes e verdes. Se você gostaria de ser iluminado ou iluminada por Derrick Jensen, por favor vá até http://www.derrickjensen.org/

Não precisamos de utopias digitais. Precisamos de boas empresas que façam produtos de qualidade e que paguem bons salários e que sejam boas para o meio ambiente. Precisamos de uma publicidade de qualidade e honesta, de marcas honestas. Nós não precisamos de anarquismo digital e nós não precisamos de revoluções políticas, tudo o que precisamos é limpar a bagunça de nosso sistema político, enquanto nós enfrentamos o fato de que talvez seja necessário reinventar a democracia a partir do zero, sabe?

E não, não é viajando no blábláblá digital que vamos chegar lá, me desculpem. É sujando as nossas mãos nas raízes e lutando uma boa luta.

 

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